Tomar esteróides funciona mais do que treinar!

Ricardo Souza

Esse é um assunto polêmico, e que desperta além da discussão, a paixão dos praticantes de musculação – e é claro, de quem usa tais “recursos”.

Mas deixando a sua filosofia e opinião pessoal um pouco de lado, e observando apenas o que temos de dados concretos, qual é o poder de hormônios esteróides em incentivar a hipertrofia muscular?

Se você tivesse que colocar lado-a-lado o aumento da massa muscular gerado só pelo uso de formas sintéticas de testosterona, e o aumento gerado apenas pelo treino, o que seria maior?

É preciso treinar para que se tenha hipertrofia?

A resposta é um sonoro não. Mas calma, não estou falando que sua massa muscular vai aparecer assim de graça. O que estou dizendo é que em diversas condições os estímulos não precisam vir do exercício. Quer um exemplo? Vamos lá:

Qual é a fase da vida em que se verifica a maior hipertrofia muscular? Na adolescência, quando se começa a praticar exercícios? Na idade adulta, quando iniciam os treinamentos com pesos e as dietas? Não. É na infância, na verdade no primeiro ano após o nascimento.

Na média, um bebê nasce pesando 3kg e ao final do primeiro ano, espera-se que ele pese ao redor de 10kg. Isso dá mais de 300% de aumento de massa… e considerando um peso ideal, sem excesso de gordura. Você acha que algum adulto conseguiria algo parecido?

Perceba então que nosso organismo consegue SIM aumentar o volume do tecido muscular esquelético sem a presença do esforço físico. Curioso, não é?

É óbvio que as condições são diferentes e o ambiente orgânico é extremamente favorável a hipertrofia. Mas note que em condições ideais não é preciso o estímulo mecânico do exercício. E nesse contexto os hormônios tem um papel importante.

Segundo uma revisão publicada em 2010, não existe estímulo mais poderoso do que o oferecido pelos homônios exógenos – aqueles que são aplicados, não os produzidos internamente – para produzir hipertrofia.

Segundo os autores, os exercícios são a maneira mais eficiente de se gerar o aumento da massa muscular, já que os hormônios exógenos, mesmo tendo um efeito muito mais significativo, estão associados a uma série de efeitos colaterais. Eles inclusive ilustram a ideia no esquema abaixo:

Mas será que isso, na prática, é verdade?

Sim. Em vários diferentes estudos. Vou colocar um que eu gosto muito pela simplicidade e inteligência da metodologia.

Em 1996 um grupo de professores investigou qual o poder da testosterona (enantato) e do exercício (musculação), de forma isolada ou combinada, em gerar aumento da massa muscular.

Foram criados 4 grupos experimentais que participaram do estudo por 10 semanas. Todos os indivíduos eram experientes e já praticavam musculação a algum tempo. O primeiro, fez musculação e tomou testosterona (600mg semanais). O segundo grupo também fez musculação, mas recebeu apenas a injeção de soro fisiológico. O terceiro e quarto grupos não se exercitaram, mas um recebeu a mesma dosagem de testosterona e o outro de soro fisiológico.

Só para se ter ideia de como a dosagem de testosterona foi significativa, ao final do estudo, quem tomou “bomba” tinha um nível de testosterona ao redor de 500pg/ml, enquanto quem não recebeu tinha valores de aproximadamente 80pg/ml (similares aos valores iniciais de todos os grupos). A tabela abaixo resume alguns desses resultados. Eu coloquei em destaque os que valem a pena discutir.

E os resultados?

Olha o item “Body weight” na coluna “variable”, em amarelo. Se você perceber, apenas dois grupos conseguiram ganhar massa total: sem exercício + testosterona e exercício + testosterona. Isso mesmo, só quem tomou testosterona conseguiu mudanças significativas na massa corporal em 10 semanas.

Outro item, “Fat-free mass”, ou seja, massa magra (azul). Em azul, apenas o grupo exercício + testosterona conseguiu. Coloquei em roxo o grupo exercício sem testosterona porque quaaaaaase deu, mas não chegou a ser significativo (apenas se considerássemos um p<0,05).

Finalmente em verde os itens “tríceps area” e “quadríceps area”, ou seja, aumento dos músculos do braço e coxa, especificamente (em verde). E novamente, os únicos grupos que conseguiram mudanças significativas foram os que tomaram esteróides… treinando ou não!

Isso mesmo: quem não treinou e usou testosterona aumentou a massa muscular de forma mais significativa do que quem foi para a academia. E conseguiu isso assistindo TV em casa.

Preste muita atenção!

Vamos a algumas considerações:

  1. Não estou falando que treinar não resolve, mas acreditar que o treino tem um poder maior que uma dose alta de esteróide no processo de hipertrofia, é não entender de fisiologia.
  2. Não estou fazendo apologia ao uso de esteróide (até acho bem estúpido quem faz isso, mas cada um faz o que quer com seu corpo), até porque os efeitos colaterais a curto e longo prazo estão aí pra quem quiser ver.
  3. Se ainda querem te convencer que o esteróide ajuda “só um pouquinho”, pede pra ele explicar porque atletas arriscam carreiras inteiras, contrato milionários e tudo mais, por algo que ajuda “só um pouquinho”. Valeria a pena?
  4. Pra quem ainda tem dúvida sobre isso, recomendo assistirem o filme Ícaro. Tem no Netflix. É excelente e trata super bem sobre o assunto esteróides e performance.

E por favor, quem quiser mais informações, é só entrar em contato ou comentar aí embaixo.

Grande abraço.

 

Referências:

Daniel W. D. West; Stuart M. Phillips, PhD, FACSM. Anabolic Processes in Human Skeletal Muscle: Restoring the Identities of Growth Hormone and Testosterone. THE PHYSICIAN AND SPORTSMEDICINE • ISSN – 0091-3847, October 2010, No. 3, Volume 38.

SHALENDER BHASIN, M.D., THOMAS W. STORER, PH.D., NANCY BERMAN, PH.D., CARLOS CALLEGARI, M.D., BRENDA CLEVENGER, B.A., JEFFREY PHILLIPS, M.D., THOMAS J. BUNNELL, B.A., RAY TRICKER, PH.D., AIDA SHIRAZI, R.PH., AND RICHARD CASABURI, PH.D., M.D. THE EFFECTS OF SUPRAPHYSIOLOGIC DOSES OF TESTOSTERONE ON MUSCLE SIZE AND STRENGTH IN NORMAL MEN. The New England Journal of Medicine. VOLUME 335 JULY 4, 1996 NUMBER 1.

 

 

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